Leitores Externos

Paulo Durval Branco

é Vice Coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), na qual lidera projetos nas áreas de estratégia e gestão de sustentabilidade, engajamento de stakeholders, cadeias de valor sustentáveis, inovação e empreendedorismo, internacionalização de empresas, entre outros. É também sócio-fundador da Ekobé, uma das primeiras consultorias brasileiras especializada em sustentabilidade corporativa, na qual contribuiu para a integração de princípios e práticas do desenvolvimento sustentável na estratégia de diversas organizações nacionais e multinacionais, assim como na cadeia de valor de diferentes setores. Mestre em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, é professor do Mestrado Profissional em Gestão da Competitividade – ênfase em Sustentabilidade e do Master em Gestão de Sustentabilidade, ambos da FGV EAESP.

Um Olhar Sobre o Relatório 2017 da Fibria

O relatório 2017 da Fibria não deixa nenhuma dúvida para o leitor de que retrata uma trajetória. Não só do ano que passou e dos exercícios recentes, mas também do próprio amadurecimento de um sistema de gestão que busca, no dia a dia, cada vez maior sintonia com a profunda transição pela qual passa nosso modo de produção e consumo. Isso fica evidente não apenas no atendimento a princípios do bom relato, como materialidade, clareza e comparabilidade, mas também na abordagem de temas socioambientais que vão desde o atendimento a aspectos regulatórios, até a opção estratégica por modelos de negócios que assumem os desafios da sustentabilidade como oportunidades reais de criação de valor para a companhia, seus públicos de relacionamento e a sociedade em geral.

Reconhecida nacional e internacionalmente pelo seu porte, perspectiva estratégica e excelência operacional, a Fibria tem demonstrado uma relevante capacidade de utilizar sua atual plataforma de negócios, baseada em uma commodity, que é a celulose, não só para consolidar sua licença para operar, como para ir além, criando os produtos e mercados da nova economia.

No que se refere à licença para operar, atribuída em última instância pelos stakeholders com os quais se relaciona, a Fibria levou a cabo em 2017 algumas iniciativas que me chamaram a atenção. Entre elas destaco:

  1. a entrada em operação da segunda linha produtiva da unidade de Três Lagoas (MS), cujo projeto e execução, mesmo com 8.700 funcionários no pico da obra, adotou práticas meritórias na gestão dos impactos que grandes empreendimentos costumam provocar nos territórios em que se instalam;
  2. o lançamento do Somos Fibria, que se traduz em um movimento que marca a evolução da cultura corporativa da companhia e se expressa em uma inspiração e um propósito ao mesmo tempo ousados e mobilizadores;
  3. o lançamento do seu Posicionamento de Diversidade, que vem acompanhado de um conjunto de ações voltadas ao reconhecimento e valorização das diferenças relativas a gênero, raça, orientação sexual e deficiência;
  4. o lançamento do Programa Suprimentos Sustentáveis, que envolveu representantes dos próprios fornecedores na sua concepção, e busca contribuir para que a área de Suprimentos da companhia seja reconhecida pelo mercado e pelos públicos de interesse como inovadora e indutora de valor econômico, social e ambiental na cadeia de valor; e
  5. a primeira emissão de títulos verdes da companhia – os chamados green bonds, no valor de US$ 700 milhões e que serão destinados a financiar investimentos ligados à energia limpa e renovável e à redução de emissões de poluentes e do consumo de água, energia e matérias-primas.

Talvez inspirada na ideia de destruição criativa, termo cunhado pelo economista Joseph Schumpeter e que se relaciona com a substituição de modelos anacrônicos por outros arranjos mais inovadores, a Fibria apresenta no seu relatório 2017 algumas iniciativas que apontam para novos produtos e mercados e merecem ser saudadas com entusiasmo. A primeira delas se refere ao desenvolvimento de soluções e produtos no campo da biotecnologia, tendo por base toda a expertise acumulada com o manejo e exploração de florestas plantadas. Navegando entre os combustíveis renováveis derivados de biomassa e os revolucionários biomateriais, as ações de corporate venturing e inovação aberta da Fibria sem dúvida estão pavimentando os caminhos para um portfólio compatível com uma economia de baixo carbono. A segunda iniciativa desta natureza que destaco, é o piloto de valoração de externalidades, que desbrava uma das fronteiras do conhecimento em sustentabilidade que é a mensuração e a valoração de aspectos ligados ao capital natural e aos serviços ecossistêmicos, elementos centrais para a operação e perenidade de uma empresa visceralmente conectada aos estoques de recursos naturais e aos fluxos da natureza. Por último destaco os esforços empreendidos, junto a diversos fóruns multistakeholders nacionais e internacionais, para a criação de um ambiente institucional favorável aos negócios que se alinham com a busca de um desenvolvimento efetivamente sustentável.

Lançando um olhar para o futuro, destaco três expectativas que gostaria de ver contempladas nos relatórios que estão por vir. Uma é a maior conexão e contextualização dos indicadores de desempenho da Fibria com relação à realidade dos territórios, países e sociedades em que está inserida. Algo como o que já começa a ser feito em relação ao tema recursos hídricos, no contexto das bacias hidrográficas onde a companhia tem operações. Isso sem dúvida diferenciaria ainda mais a interessante Central de Indicadores que já é parte dos relatórios da empresa há alguns anos.

Outra expectativa recai sobre um relato mais amplo e profundo do processo de diversificação do portfólio com base nas inovações no campo da biotecnologia. Isso não só é inspirador para outras empresas, como pode apontar caminhos para um país como o Brasil, que tem na biodiversidade seu passaporte para o futuro. Quanto à última expectativa, entendo que deve partir de empresas como a Fibria o arrojo na construção das novas métrica que, de fato, contribuam para incorporar o capital natural nas decisões econômico-financeiras. Se para as empresas da velha economia isso irá representar substancial perda de valor ou mesmo custar a sobrevivência, para aquelas que estão se destruindo criativamente certamente significará a transição para uma economia que leva em conta as pessoas e a capacidade de suporte do planeta.

Paulo Nassar

Professor Titular da ECA-USP e Diretor Presidente da Aberje

Doutor e mestre pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e Pós Doutor pela Libera Università di Lingue e Comunicazione (IULM) de Milão, Itália. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN ECA-USP) e Professor Titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor Presidente da Aberje Associação Brasileira de Comunicação Empresarial.

Um relato honesto é melhor se o fazem sem rodeios.

William Shakespeare, Ricardo III, ato IV.

O Relatório Fibria de Sustentabilidade 2017, com ênfase ao valor compartilhado e às questões sociais, é feito sem rodeios e pode ser sintetizado numa palavra: realismo.

Por que fazer essa distinção?

Por três razões principais. Em primeiro lugar, porque é escrito em estilo socrático, na forma de pergunta e respostas, e assim consegue falar igualmente de conquistas e impasses – com destaque para as conquistas, mas sem minimizar os impasses. Consegue ir além da fórmula autoelogiosa, valorizando o trabalho em equipe, a visão de futuro e, igualmente, as conquistas da empresa em meio a um ano dos mais difíceis na história brasileira.

Em segundo lugar porque foi além do registro dos lucros para abordar questões sociais, como o combate à exploração sexual de crianças e jovens, onde a empresa tem suas raízes. E não ficou apenas nisso. Teceu alianças com a comunidade para enfrentar questões de gênero, raça e a exclusão social, sempre reconhecendo as dificuldades . Por esse caminho deu nova dimensão e amplitude às responsabilidades corporativas. Criou novos paradigmas.

Em terceiro lugar, concentrou-se na complexidade de cuidar do meio ambiente para uma empresa que planta florestas. Assim sendo, demonstrou sua determinação de integrar-se às comunidades em lugar de viver em conflitos com elas. Em outros termos, pode-se dizer que o Relatório resgata o sentido da reputação corporativa de uma empresa do setor de papel e celulose. Demonstra que, além de desejar ser reconhecida pela busca do equilíbrio e o saudável relacionamento com as comunidades, procura, no contexto da preservação do meio ambiente, ser singularizada. E essa singularidade significa o reconhecimento de que sustentabilidade é tudo; é um conjunto que comunica estabilidade na medida em que realiza uma narrativa honesta em que a informação valoriza até mesmo os impasses.

É um código de estabilidade moderno e em sintonia com a velocidade com que a informação circula. Ao reconhecer as dificuldades, valoriza as conquistas e o valor compartilhado que não é outra coisa senão a influência positiva da empresa junto à sociedade. Essas são as linhas de um argumento amplo que faz do Relatório de Sustentabilidade 2017 um documento amplo de comunicação e faz da sustentabilidade uma política prática e visível, sob todos os ângulos. Mais do que a transparência, seu alvo é a disposição para a realidade das ações. Isto demonstra, quando as mensagens do Relatório são decodificadas, que empresa e comunidade podem agir juntos e igualmente evoluírem.